segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Mar Vermelho

Não consigo abrir os olhos, porém estou acordado, sei que estou acordado... minha boca está ressecada, sinto sede, sinto meu corpo todo dolorido. Alguma parte do meu braço direito está machucado e sangra, sinto o vendo frio batendo no ferimento como se cada vez mais o soprar cortasse minha carne já machucada. Ao longe ouço sons pipocados... pipocas estourando. É só isso. Tento abrir os olhos devagar. Uma, duas vezes, na terceira como se se descolassem um pouco minhas pálpebras, sinto logo os raios de sol perfurando minha retina. Já está de manhã. O céu está azul, muito azul, mas não sei porque, ao mesmo tempo ele parece acinzentado. Minha mão esquerda... sinto água nela. Indo. Vindo. Uma água fria. Pelo cheiro e pelo som... diria que estou na praia, mas é como se a maresia estivesse com um tom diferente em seu odor. Se não fosse uma loucura muito grande, diria que é como se fosse o cheiro da morte. Viro minha cabeça com muita dificuldade para olhar. É o mar. Um mar vermelho. Não, não o Mar Vermelho, é apenas um mar com águas vermelhas. Um fenômeno da natureza, talvez? Uma coisa pra se apreciar em meio a tanta dor. As pipocas pararam de estourar, por enquanto. Tento me levantar para olhar o mar. Minha cabeça pesa, literalmente. Lembro-me que estou usando meu capacete... levo minhas mãos ao queixo e desafivelo. Solto. Tento me levantar novamente. Cada minúscula parte do meu corpo dói enquanto me movimento, apóio meus braços na areia para me impulsionar para cima e nisso minha ferida no braço lateja, pela força, pelo vento. Ao me sentar, vejo tudo preto. Levantei-me rápido demais para o que pareceram horas deitado na mesma posição. Olho em direção ao mar vermelho, começo a me lembrar o que estava fazendo e porque estava ali e descubro que aquilo ali não é um fenômeno da natureza. Não estou presenciando mais uma façanha divina. Não. É apenas sangue. Olho para praia e os vejo. Dezenas, centenas. São milhares de corpos se amontoando por toda beira-mar, por toda areia. Até onde minha vista consegue enxergar eu os vejo. Corpos. Agora meros corpos. Horas atrás poderia chamá-los de amigos, companheiros, estávamos juntos ao descermos nessa praia. As pipocas recomeçaram, mas me lembro, não são pipocas, são tiros e mais corpos caindo, tenho certeza. Estou em plena guerra. E ao que me parece sou a única pessoa viva nessa praia, nesse momento. Afinal, me lembro de tudo agora. Deixo-me pender novamente para trás. Deito-me. Queria ser apenas mais um corpo.

2 comentários:

Adrian Troccoli disse...

Como se aplaude em um comentario de blog...?/?/?/?
Bem (aplausos), muito legal...parabens...

Continue assim, dor sangue e lagrimas...
e umas risadas as vezes



(...)

Vicky disse...

Essa mudança de perfil foi fantastica...texto mto bom...
(palmas com a minha buddy em pé)
hahahaa